Ignorance is bliss

04Oct06

Hoje, durante uma longa conversa com uma amiga, eu explicava como eu sou obrigada a me divertir para conseguir viver, ao contrário de viver para me divertir, como todas as outras pessoas do planeta parecem estar. Neste diálogo, eu expliquei como, ao vir ao mundo sem parecer físicamente com a Sienna Miller ou a Jennifer Conelly, eu sou obrigada a me divertir.

Ando pelas ruas parecendo uma palhaça: são camas sob camadas de roupas, mesmo no verão. Combinações que não fazem o mínimo sentindo completas com uma porção de acessórios. Minha racioncínio é lógico, é fato que não tenho corpo e rosto exuberantes. Neste caso, não importa o que eu visto, não é como se eu estivesse escondendo uma beleza inigualável. Assim, me divirto. Faço uma loucura com as peças, jogo outras por cima, uso vestidos que ninguém mais em todo o planeta usaria, coloco laços extremamente cafonas nos cabelos ou na cintura e dou risada de mim mesma.

O mesmo acontecem com as fotos. Para entender, some as informações a cima com o fato de que nasci desprovida de qualquer grau de fotogenia. Minhas fotos parecem caricaturas, as câmeras têm o dom de escolherem o que eu tenho de pior e enfatizar aquele ponto na imagem. O que me resta? Me divertir! Eu faço careta, mostro a língua, faço bico, escondo o rosto… Enfim, faço uma foto divertida. É o que me resta.

E é assim com todos os outros aspectos da minha vida. Este ano, pela primeira vez, eu fui fazer cobertura de Tapete Vermelho para o jornal. O primeiro foi o lançamento de United 93. O segundo foi Missão Impossível: 3. Ambos como parte do Tribeca Film Festival. A profissão mais cretina do planeta é a de um fotógrafo/repórter de Tapete Vermelho. É necessário chegar no local com horas de antecedência, encontrar o local pré-terminado – separado com seu nome colado em um papel no chão – e esperar. Para MI:3 eu esperei por cerca de cinco horas. Em pé.

Eu, que já não acho o Tom Cruise nenhuma simpatia, pelo contrário, o enxergo como um seguidor da seita “Michael Jackson Freak”, passei a odiar o cara mais ainda. O que fazer nestes casos? Me divertir! Eu fiz as perguntas mais sem-noção do planeta para as personalidades que passavam por mim. Gritei palavrões em todas as línguas que conheço (e olha que, apesar de conhecer poucas línguas, eu conheço muitos plavrões), e assustei as pessoas. Se não fosse isso, eu dormiria. Pior do que a cobertura do Tapete Vermelho, fica a Fashion Week. Se enquadram na categoria “eventos de dar sono”.

Nestas últimas semanas, foram as coberturas de novas exposições em renomados museus de Nova York. O engraçado é que, nestes eventos – chamados de Press Review – só tem velho. Me sinto sempre em um clube exclusivo para maiores de 80 anos. Uma intrusa. Os outros jornalistas olham para mim como quem diz com os olhos, “O que esta pirralha sabe sobre arte?” Quanto mais seguimentada é a exposição, pior fica a faixa etária dos formadores de opinião.

Outro dia, em uma mostra sobre vazos de porcelana e cerâmica do Japão pós-guerra, me senti como se estivesse internada em uma casa de repouso em algum país distante. Lá fora, a água caía pela parede no que era uma representação de uma cascata. Lá dentro, um senhor inglês, formado em Literatura e Língua Chinesa pela Universidade de Oxford explicava como a porcelana é relativamente nova no Japão. Os velhos, é claro, me olhavam e, depois da apresentação se apresenta, e perguntam minha idade. E eu? Eu me divirto. Minto, falo que tenho entre 15 e 105 anos. E falo sério. Conto histórias absurdas sobre como estudei arte indígena na universidade, invento nomes de tribos.

De que outra forma eu poderia responder à estas pessoas que associam conhecimento com idade? Porque eu ainda não completei meu primeiro século de vida como eles, que parecem ter passado por muitos, eu não posso saber absolutamente nada de arte? Quem inventou que apreciar arte é exclusividade de quarta idade (terceira, não!)?

Hoje, visitando a exposição “Tropicália”, no Museum of Arts do Bronx, uma senhora veio me perguntar se eu me lembrava da época da tropicália. Ela era uma das curadoras do evento e me achou “muito novinha”. O que responder? “Minha senhora, quantos anos você acha que eu tenho? Nesta época, eu sequer era um espermã.”? Ou deveria eu explicar a realidade? “Eu eu não vivi a tropicália porque nasci vinte anos após o início do movimento mas, sempre escutei falar, não apenas da instalação do Hélio Oiticica, mas de tudo que aconteceu como expressão de arte na época da ditadura.”?

Fala sério! Eu preciso me divertir. A ignorância das pessoas é tanta que o meu papel na Terra é simplesmente colaborar para que ela apenas aumente. Então, eu minto. Faço piada, conto histórias, me divirto. É apenas uma questão de sobrevivência. Diversão para poder sobreviver.

Acabei pintando a parede da exposição interativa com palavras nas quais eu realmente acredito. “Ignorance is bliss.”

***

Como diz meu mestre, Pedro, na internet sempre tem um imbecil chamando os outros de imbecil. E outros imbecis lendo tudo isso.

Imbecil!

\O/



2 Responses to “Ignorance is bliss”

  1. 1 time traveler

    van, voce me mata com esse seu blog!

  2. 2 Mary Jane

    Você acha? E o Tomita me liga, irado, querendo quebrar a minha cara por causa deste post. Eu sou such a sweetheart!


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