ENTREVISTA com Péricles M., da banda curitibana Gomma Fou

30Sep06

ENTREVISTA com Péricles M., da banda curitibana Gomma Fou

Péricles M. e Jô Mistinguett = Gomma Fou

Vanessa Mael

O curitibano Péricles M., a.k.a. Péricles Martins de Oliveira, é o mais jovem entre os selecionados para integrar a Motomix Project Band, banda experimental organizada pelo produtor musical e curador do MOTOMIX 2006, Dudu Moreto. A Motomix Project Band abriu o último festival de música pop-eletrônica em São Paulo, nos dias 16 e 17 de setembro, e contou com a participação de grandes nomes do rock alternativo mundial como os escoses Franz Ferdinand e os ingleses Art Brut e os nova-iorquinos Radio 4.
Aos 19 anos, M. é multi-instrumentista autodidata e produtor de música eletrônica, além de autêntico representante da geração de “bedroom producers” (produtores que surgem dentro do próprio quarto). Segundo M., sua escola de produção foram seus discos e sua vontade de criar música. Apesar da pouca idade, ele tem bagagem e já tocou em banda de rock, manteve outros projetos de electropop e trip hop, como o grupo Smouk. Atualmente, vem mostrando seu trabalho através do duo de electro-rock Gomma Fou, que mantém com a parceira Jô Mistinguett.
Mistinguett é formada pela Academia Internacional de Música Eletrônica de Curitiba (AIMEC), e vem mostrando seu talento na noite curitibana. Além de discotecar em diversas casas, ela já produziu festas antes de tocar, cantar e pular amarelhinha com a banda disco-punk. Seu currículo inclui a abertura do show do grupo Digitaria, em sua recente passagem pela capital paranaense e discotecagens em várias festas rock de peso, como a Sadique, Riffs & Beats, Big Mutha Truckers Party, Chilli Magazine em Joinville e, em bares descolados como o James, VU Bar e Lola Café.
O som da dupla mistura batidas de disco-punk, timbres pesados, guitarras distorcidas, vocais histéricos e letras divertidas, todas em inglês. Ambos cantam e, durante as apresentações ao-vivo, focalizam no uso da guitarra, teclado, sintetizador e laptop. Com pouco tempo de estrada, o Gomma Fou teve músicas tocadas nos sets de importantes DJs do cenário alternativo nacional, já se apresentou na maior festa electro de Florianópolis, a Devassa e teve a música “Heather”, tocada com admirável frequência, em uma das maiores rádios portuguesas durante as últimas semanas. Agora, os curitibanos comemoram o sucesso de sua participação no festival MOTOMIX 2006, durante o último final de semana.
Em entrevista, o bem-humorado Péricles M., conta os resultados da participação em um dos maiores festivais de música eletrônica do país, fala dos planos para o futuro e comemora a invenção da internet, principal ferramenta de divulgação do trabalho da banda.

Tenho notado a retomada do estilo musical classificado como electro-rock ou electro-punk. Muitas bandas que já desevolveram trabalhos nesta vertente estão retornando com discos novos, como o caso do The Rapture, que lançou recentemente seu segundo álbum, “Pieces of the People We Love”. O Gomma Fou está ganhando destaque no cenário disco-punk nacional em um momento importante. Como vocês formataram o grupo?
Péricles M. – Antes do Gomma Fou eu já toquei em banda de rock. Em 2003 comecei a produzir e acabei criando um projeto de electro-pop que durou apenas duas músicas. (Risos). Eu sempre gostei muito do estilo eletrônico. Entretanto, achava minhas produções muito frias, não gosto daquela coisa programada, sem toque “humano”. Queria fazer algo mais orgânico e decidi partir para o Smouk, projeto trip-hop que também durou apenas duas músicas. (Risos). No início deste ano, o Pedro Deyrot, da banda “Bonde do Rolê”, me convidou para tocar em um bar de Curitiba, no lançamento do projeto solo dele, o Deviant Kid 001. Eu já estava com o Gomma Fou montado e algumas música gravadas com a Jô, que é DJ conhecida no cenário underground de Curitiba, mas que nunca tinha se envolvido em projeto ou banda. Este (convite do Pedro Deyrot) foi o empurrão pra o Gomma Fou começar a se apresentar ao-vivo. No final, deu super-certo, nós tínhamos idéias parecidas. Tentamos juntar rock com bases eletrônicas, mas sem utilizar do formato original da música eletrônica, aquela coisa “introdução, ápice, break, final”. Preferimos o formato de uma canção de rock mesmo.

Como você começou a produzir? De onde surgiu o conhecimento para mixar sons diferentes?
Péricles M. – Sou autoditada. Começei a produzir usando programinhas toscos como, por exemplo, a segunda versão do (software) Fruity Loops. (Risos). Mais tarde, gravei com programas como o Audition, Reason, Cubase, dentro do meu quarto, utilizando meu computador pessoal.

De onde surgiu a idéia do nome francês Gomma Fou? A tradução é “Insano Engano”?
Péricles M. – Eu achava que Gomma era Gomma mesmo! (Gomma, utilizada como gíria para designar casa). Na verdade, não tem significado, queríamos um nome que soasse bem em qualquer língua, desde que não fosse inglês ou português. Fou é insano, foi idéia da Jô! (Risos).

Como funciona o processo de criação das canções do Gomma Fou? Quem compõe e como vocês administram a divisão de tarefas e conversão de habilidades?
Péricles M. – Nós dois compomos as canções juntos. Durante a produção, estamos trabalhando juntos também!

Você citou uma amizade com o pessoal da banda curitibana Bonde do Rolê que, recentemente, passou por uma turnê com mais de 40 shows nos EUA e Canadá em conjunto com a banda de São Paulo, Cansei de Ser Sexy. Entretanto, a mídia norte-americana não deu o devido destaque a electro-pop CSS, que canta em inglês e, preferiu valorizar o funk de Bonde do Rolê. Como você enxerga esta projeção internacional de bandas brasileiras?
Péricles M. – Acredito que, porque CSS faz um tipo de música que muitos europeus e norte-americanos já fazem e Bonde produz “funk carioca”, estilo que o Brasil pegou dos americanos, como o Miami Bass, e transformou em algo mais original, acabou recebendo mais destque. Eu acredito na originalidade da visão deles. Mas, acho bem legal o que está acontecendo. CSS e Bonde já fazem parte do cenário músical internacional e isso é incrivel pra gente.

Vocês disponibilizaram quatro músicas no site de relacionamentos MySpace/GommaFou. Quantas canções vocês já têm gravadas? São todas em Inglês?
Péricles M. – Nós já temos nove músicas prontas, que tocamos ao vivo e , estamos sempre produzindo coisas novas. São todas em inglês mesmo, é muito difícil escrever em português e soar bacana para o estilo de som que nós fazemos, claro. (Risos)

Onde vocês se apresentam ao vivo? Vocês tem contratos com casas de show em Curitiba e são Paulo?
Péricles M. – Nós temos pouco tempo de banda, estamos juntos desde março de 2006. Entretanto, o “boca-a-boca” e o uso de ferramentas da internet ajudaram muito. Muitas pessoas conheceram nosso trabalho e nos mandaram mensagens, perguntando de shows, músicas novas. O nosso primeiro show foi em abril, pra cerca de 50 pessoas em um bar de Curitiba, durante o lançamento do trabalho solo do Pedro Deyrot. O segundo show foi em Florianópolis em julho deste ano, pra aproximadamente 450 pessoas, em um clube bacana. Neste ponto, as pessoas ligadas a este estilo de música já tinham ouvido falar de Gomma Fou. O nosso terceiro show foi para 10 mil pessoas, no MOTOMIX 2006, em São Paulo, neste final de semana (16 e 17 de setembro). (Risos)

Como surgiu a oportunidade de tocar no festival de música eletrônica MOTOMIX?
Péricles M. – Isto aconteceu porque eu me inscrevi numa seleção de produtores que iriam abrir o festival, através da formação de uma banda única, a Motomix Project Band. De 2000 inscritos de todo o Brasil, selecionaram seis produtores e eu fui um dos escolhidos. O produtor Dudu Marote, curador do Festival, gostou muito do nosso trabalho e mandou contactar a Jô e confirmar a nossa participação no MOTOMIX 2006.

Já tem um vídeo de vocês tocando no MOTOMIX 2006 disponível no YouTube. com. Como o público recebeu a banda do projeto experimental e, em especial, as duas músicas do Gomma Fou?
Péricles M. – O show da banda projeto do Festival iniciou com a apresentação de dois produtores independentes, executando um som experimental. Então, outros dois artistas entraram no palco, produzindo um som denominado minimal techno. No final, o Gomma Fou entrou para tocar as músicas “Heather” e “Rockstar Lifestyle”. Ainda, após nossa apresentação, houve a participação da cantora norueguesa Annie. Após esta participação no MOTOMIX 2006 estamos recebendo muitos contatos de pessoas interessadas no nosso trabalho. Também, recebemos comentários positivos da galera que assistiu nosso live set em São Paulo. Além disso, a divulgação da banda vai aumentar após a exibição do Especial MOTOMIX no canal MTV Brasil, durante a próxima semana. O especial da MTV vai incluir um trecho do show, do ensaio da banda e uma entrevista. Também deve sair uma coletânea com as músicas tocadas na “Motomix Project Band”, e um vinil do projeto. Então, tem muita coisa boa acontecendo. O mais engraçado disso tudo, foi escutar várias pessoas cantando as letras da música junto com a gente. O refrão da música “Rockstar Lifestyle” foi acompanhado pela platéia. Achei isso muito louco. O público recebeu nossa trabalho muito bem, a internet realmente é uma arma poderosíssima pra divulgação do trabalho independente!

Como você analisa a facilidade com que a internet é capaz de divulgar informação e material de bandas independentes como a Gomma Fou? Qual o risco que você enxerga deste fenômeno para a indústria fonográfica?
Péricles M. – Essa fase que estamos passando é de renovação nos padrões musicais, de uma maneira que, as pessoas ouvem e compram música de acordo com seu gosto musical. Hoje em dia, ninguém compra o CD por causa de duas canções que mais gosta, é possível usar o i-Tunes comprar estas duas conções preferidas avulsas e não o disco todo. Isso pode ser ruim para gravadoras mas, vai melhorar muito a qualidade do material e exigir mais dos artistas preguiçosos. (Risos) Não existe mais aquela história de lançar uma porcaria nova a todo tempo para poder ter um lugar na mídia e, sim lançar um trabalho de qualidade pra se estabelecer. Com o advento da internet, nao é mais a quantidade que conta, mas sim a qualidade. Além de que, hoje em dia, qualquer um pode fazer música dentro do seu proprio quarto, como nós mesmos. (Risos) É necessário se empenhar se quiser ter qualquer tipo de reconhecimento.

O Dudu Marote falou recentemente em entrevista que gostaria que a Project Band continue mostrando os resultados em outras apresentações ao vivo pelo Brasil. Vocês pretendem seguir esta idéia?
Péricles M. – Ele é um ótimo produtor e nós três trabalhamos no estúdio muito tempo, foi incrivel!

Vocês têm algum outro projeto de trabalho em conjunto com outras bandas como o que aconteceu com a Motomix Project Band?
Péricles M. – Queremos continuar este trabalho sim. A nossa apresentação ao vivo consiste em minha performance que inclui vocal e guitarra. A Jô toca teclado, solta as bases, canta, dança e pula amarelinha! (Risos) Estamos pensando em chamar um baterista para tocar ao vivo. Eu já fiz uma faixa com a Leandra do projeto electro Voz del Fuego, do Rio de Janeiro. Essa faixa estará na coletânea do MOTOMIX 2006 e foi co-produzida pelo Marcel da banda Zémaria, nosso James Murphy “do agreste”. (Risos).

Você assistiu os outros shows do MOTOMIX? Curte Franz Ferdinand, Art Brut e Radio 4?
Péricles M. – Assisti sim. Fique mais impressionado com Radio 4 e Modeselektor. Foram apresentações muito boas e, dividir o palco com estes nomes, foi fantástico.

Durante o MOTOMIX 2006, houve um problema adminstrativo com a licença municipal e até o último minuto não se sabia se o Festival ocorreria em São Paulo ou não. Como foi aquilo, te deixou nervoso, ou com medo de acabar não rolando?
Péricles M. – Sim, até sábado (16 de setembro), ao meio-dia, não sabíamos ainda onde iríamos tocar. (Risos). Mas, deu tudo certo e, mesmo se não rolasse o show, as duas semanas que passamos em estúdio, criando e produzindo nosso material, foi aprendizado suficiente.

Vocês têm projeto de gravar um álbum no futuro? Também pretendem se lançar nos EUA?
Péricles M. – Sim, mas estamos deixando isso acontecer naturalmente. Já estamos vivendo em um rítmo muito rápido, com apenas cinco meses de banda já temos um certo reconhecimento, principalmente na cena underground brasileira. E isso aconteceu apenas através da divulgação das músicas pelas internet e pelo “boca-a-boca”. Vários DJ’s por aqui estão tocando nossa música em seus sets! Isso tudo é muito bacana e vai acontecendo sem pressa.

Qual é a inspiração que o Gomma Fou busca para criar suas músicas, quais são suas influências?
Péricles M. – A maior influência do Gomma Fou é a vodka, o limão e o gelo. (Risos) Eu não ligo muito pra influências, prefiro estar fazendo o som que gostamos, com o qual nos identificamos e ponto final. Mas, já ouvi bastante gente dizer que o Gomma Fou é o filho da banda Daft Punk com o White Stripes.

Vocês dois estudam? Como conciliam as viagens e os ensaios com os horários de aula?
Péricles M. – Eu faço jornalismo e a Jô faz design de manhã. Nós ensaiamos à tarde e à noite. Com estas viagem à São Paulo, perdemos meio mês de aula então, acho seremos dois repetentes ano que vem. (Risos).

As canções do Gomma Fou podem ser conferidas em sua página no site My Space (www.myspace.com/gommafou).

A foto é Manoel Neto.



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