Que imigrante é esse?

06Jul06

EUA – Quem são seus imigrantes? – 6/7/2006 12:19:15
(Nova York, BR Press**) – Governo norte-americano tem uma difícil questão a resolver: “O que fazer com 32 milhões de imigrantes em situação irregular no país?”. Por Mychelle Romeda e Vanessa Mael.

EUA – Quem são seus imigrantes?

Por Mychelle Romeda e Vanessa Mael

(Nova York, BR Press**) – Quando um país, por um motivo qualquer, necessita que indivíduos de outras nações venham a oferecer sua força de trabalho e, estes, por sua vez, não têm como efetuá-la em seu próprio lugar de origem, buscando exercê-la em outras terras, nos vemos diante de uma situação social propícia à imigração. Além disso, o ânseio em conhecer culturas diferentes, entender como outros povos vivem, se relacionam e se comportam são os motivos que levam uma pessoa a considerar a possibilidade de mudar-se do seu país de origem.

Estas características aliadas à um convite de trabalho ou ao desejo de estudar em uma instituição de ensino norte-americana, faz com que milhares de brasileiros venham para o EUA com as malas prontas — para ficar de vez. É o caso de Daniele Martin*, que vive nos EUA há oito anos, e já aplicou para a cidadania. Martin realizou o teste do Immigration e Naturalization Services na última quarta (05/07). “Não me mudei para os EUA em busca do ‘sonho americano’. Até porque, naquela época, eu nem sabia da existência deste conceito. Vim viver aqui e executar tudo o que isso representa. Gosto do estilo de vista, gosto de poder conhecer pessoas do mundo todo, com culturas riquíssimas, e ter opções de entretenimento cultural diversificadas”, diz.

Em 2005, mais de 16 mil brasileiros imigraram legalmente para o país. É um crescimento de 58% em relação à 2004, de acordo com estudo do US Citzenship and Immigration Services (USCIS). O imigrante permanente — que veio para ficar — está aberto para conhecer novos lugares, pessoas e culturas, diferentemente do “imigrante sazonal” (que procura outra nação para acúmulo de capital e bens de consumo, com a intenção de retornar para o país de origem e conquistar, assim, uma melhor qualidade de vida). Uma vez em terras novas, esta pessoa está passível de se apaixonar por um novo estilo de vida.

Epcot Center gigante

Uma escola de inglês brasileira traz em seu logo a frase Cidadão do Mundo. Para um grupo específico de imigrantes presentes atualmente no EUA, esta é a justificativa para a mudança de país. “A concepção de países e fronteiras é tão primitiva que preferi ignorá-la e resolvi viver em uma parte diferente do globo”, explica Graziele Besen, 26 anos, pós-graduada em Fisiologia do Exercício. Besen saiu do Brasil há dois anos, e vive hoje em Baltimore, Maryland, onde cursa mestrado em Fisioterapia, no Community College of Baltimore County. “Gosto tanto de morar em um local em que eu conheço pessoas do mundo todo e, por isso, acabo me envolvendo com diferentes culturas, visitando diferentes restaurantes, é como se fosse um Epcot Center gigante”, diz Bessen, se referindo ao parque educativo-cultural da Disney World.

“Senti, durante muito tempo, que eu não pertencia ao Brasil, como um peixinho fora d’água”, revela Daniele Martin, de 28 anos, designer gráfica que vive em Highland Park, New Jersey, desde os 17. “Aqui, eu me identifiquei com o estilo de vida. Quando saí do Brasil, estava entediada e queria conhecer coisas novas. Nos EUA eu encontrei meu lugar”, continua Martin, que cursou Graphic Design na Middlessex Community College e trabalha atualmente como designer da Muralo Paints.

“Minha família mora hoje no Canadá. Assim como eu, meus pais também escolheram outro país para viver”, explica Martin, que viaja constantemente para o Canadá para visitar os parentes. “Meu pai é engenheiro e foi para o Canadá suprir a demanada de mão-de-obra especializada especializada há alguns anos atrás. Sinto falta das pessoas, dos amigos, do calor brasileiro”, comenta Martin. “Mas o americano também não é tão frio quanto todo mundo pinta, eu já presenciei momentos em que os americanos demonstraram intensa compaixão e solidariedade a amigos e parentes”, diz a designer, lembrando-se de um episódio em que o apartamento de uma parente pegou fogo e os vizinhos vizeram doações generosas.

Diante da realidade de um Brasil com sérios problemas sociais, o imigrante permanente dá valor à qualidade de vida e valoriza a arte e cultura. “Você pode contar quantos museus existem no Brasil inteiro? E em New York? Até mesmo a Filadelfia, que é 10 vezes menor do que São Paulo no número de habitantes, tem uma quantidade maior de museus do que qualquer capital brasileira”, contabiliza Eliana Maeda. “A variedade de eventos culturais disponíveis, muitas vezes gratuitos, é o que prende qualquer ser humano à New York — é impossível não viver aqui”, declara Marina Colabelo, fisioterapeuta que mora no Brooklyn, há dois anos.

“Nos EUA encontramos segurança pública. Apesar de certos bairros manterem alto índice de assaltos e assassinatos, em média, New York é um local onde eu me sinto segura para pegar o metrô de madrugada, voltando de alguma festa. Eu não o faria em São Paulo”, diz Colabelo. “É a possibilidade de ter opção. Ficando no Brasil, com ou sem dinheiro, você pode ter certeza que você não vai assistir a peças de teatro com a frequência que é possível assistir em New York, por exemplo”, compara Glauce Baen, psicóloga que vive em New York. “É uma questão simples de escolha. Eu quero ter o direito de fazer escolhas, e por isso eu não moro no Brasil.”

Mão-de-obra especializada

Esta categoria de vistos foi estabelecida pelo Congresso norte-americano em 1990, e dá a opotunidades a empregadores de contratar mão-de-obra altamente especializada. Inicialmente, este visto dá o direito do imigrante permanecer no EUA por três anos. Ele é renovável por mais três anos. Apesar de ser considerado um visto para trabalhadores temporários, após cinco anos é possível aplicar para a residência permanente.

Geralmente, nesta categoria de visto enquadram-se estrangeiros com ocupações que requerem conhecimento técnico ou teórico em um campo especializado, como arquitetos, engenheiros, programadores, contadores, doutores, professores universitários e modelos. É necessário comprovar os conhecimentos através da apresentação de um diploma de mestrado ou de qualificação superior.

O projeto de reforma na lei de imigração, atualmente sendo analisado pelo Senado norte-americano, também prevê o aumento significativo do número de vistos anuais para trabalhadores estrangeiros altamente qualificados, conhecidos como H1-B. A indústria de alta tecnologia vem promovendo esta mudança legal, por considerar que os estrangeiros especializados são vitais para a saúde das empresas americanas e sua liderança mundial.

Em 2004, grupos oponentes à imigração conseguiram uma redução da cota de vistos H1-B em dois terços, dos 195 mil concedidos em 2001 para apenas 65 mil. No entanto, várias empresas de tecnologia reinvindicaram um aumento no número de vistos H1-B para 115 mil, a partir do próximo ano, tendo em vista a demanda de mercado.

De imigrantes a cidadãos

O imigrante, por definição, é a pessoa que se estabelece em um país que não é aquele em que nasceu. No entanto, a questão não é tão simples assim. Cada caso de imigração tem a sua particularidade. Em comum, todos os imgrantes buscam uma só coisa – melhores condições de vida. Quer seja em busca de emprego, oportunidades de fazer cursos, fuga de guerras, motivos políticos, entre inúmeros outros motivos.

Diante da definição do que vem a ser um imigrante, é possível identificar uma diferença entre o que acontece na prática. A grande maioria vêm em busca de trabalho, para juntar uma quantia de dinheiro ou realizar um objetivo, como comprar uma casa, abrir um negócio ou pagar os estudos. Mas não vêm com a intenção de imigrar. A estada é temporária, ou seja, trata-se de uma imigração sazonal.

Nestes casos, a definição de “migrantes” é a que melhor descreve a trajetória desses estrangeiros, apesar desta denominação ser usada para o indivíduo que muda de uma região para a outra, no interior de um país. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), “o migrante pode constituir família, conseguir ocupação e fazer amigos no local para onde migrou ou, ao contrário, ter deixado tudo isso na localidade na qual morava, para tentar a sorte em outra cidade. Faz novos amigos, arranja outro emprego, sendo possível até que volte ou mande vir para junto de si seus familiares. Isto quando não migram famílias inteiras”.

Mudanças como essas parecem simples, porém, mexem com diversas estruturas, tanto econômicas quanto sociais, tanto de um país como de outro. Além disso, mexe com a questão da identidade cultural de cada pessoa. Muito além de transpor barreiras geográficas, um imigrante deve ultrapassar barreiras culturais.

“Tenho 41 anos, sou natural de Belo Horizonte. Cheguei aos Estado Unidos em 1997, depois de meu negócio ter falido no Brasil. Eu tinha uma rede de mercados, cerca de seis estabelecimentos de pequeno porte”, conta Arthur*. “Como todo mundo sabe, quando se chega aqui a gente faz de tudo. E comigo, claro, não foi diferente”. Hoje Arthur trabalha em companhias que fazem asfalto e manutenção de estradas, pontes, túneis, etc. É sindicalizado. Ganha cerca de US$ 30,00 dólares por hora e tem direitos de um cidadão americano, apesar de ainda não ser, “infelizmente”.

Saga via México

Até chegar a esta condição – que ele ainda não considera satisfatória, penou. Durante os primeiros anos em que viveu nos Estados Unidos, Arthur se casou e teve filhos. Eles são americanos. Em 2002, já há cinco anos sem ver seus familiares, resolveu ir ao Brasil. “Fui com a cara e a coragem. Mas, na hora em que voltei, fui deportado ainda no aeroporto”, lamenta. “Precisava voltar aos EUA. Minha família e meu emprego estavam aqui. Também havia recém comprado uma casa, enfim, tinha que entrar aqui de qualquer jeito. A minha única opção era entrar no país pelo México”.

Até atravessar a fronteira tiveram alguns percalços, mas o inferno começou mesmo depois dessa etapa. “Foi quando o grupo de pessoas do qual eu fazia parte ficou trancado em um micro apartamento em Dallas, por uma semana, sem poder sair. Literalmente um sequestro em massa. Todo mundo mantido em cativeiro, se revezando para dormir porque o espaço era pequeno”, lembra. A situação se tornou insuportável e, depois de duas tentativas mal-sucedidas, ele conseguiu fugir. “Contei com a ajuda de um casal de americanos para sair da cidade. Eu disse a eles que morava em New Jersey e que estava passando as férias em Dallas, e que havia sido assaltado”.

Arthur voltou ao seu trabalho e à sua família e, desde então, não veio mais ao Brasil. “Não sei qual será o meu futuro”, avalia. ”Embora eu já esteja vivendo aqui há mais de oito anos, ainda alimento o sonho de voltar ao Brasil. Ao longo deste tempo também adquiri um sítio e uma casa no Brasil, pensando no meu regresso, claro. Eu gostaria de poder continuar trabalhar aqui e viver lá. Tem muita gente que faz isso, trabalha no verão aqui e quando chega o inverno vai ao Brasil, viver no verão de lá. Isso sim é que é bom. Viver só de verão, juntando o que os Estados Unidos tem de bom, que é o trabalho, com o que o Brasil tem de melhor, a qualidade de vida”, sonha. “Quero me tornar cidadão norte-americano para poder trabalhar legalmente e poder entrar e sair do país. Pago impostos e contribuo com os Estados Unidos, apesar de ser considerado ‘ilegal’. Aliás, não precisava necessariamente ser cidadão, bastava ser legalizado. Eu quero trabalhar sem medo”.

Cidadania migrante

As alterações causadas devido ao aumento do fluxo imigratório nos últimos tempos têm levado os governos a criarem uma política migratória mais severa. Este é o caso dos Estados Unidos, que aprovaram recentemente uma lei que pretende criminalizar as pessoas indocumentadas no país.

A busca, cada vez maior, por títulos de cidadania tem aumentado as dicussões ao redor do tema. Mas, ser cidadão pode não ser a resposta para os problemas para nenhum dos lados. A cidadania não surge do nada como um toque de mágica, nem tão pouco a simples conquista legal de alguns direitos significa a realização destes direitos. É necessário que o cidadão participe, seja ativo, faça valer os seus direitos, caso contrário, eles ficarão só no papel.

A lacuna na legislação norte-americana no que tange as leis de imigração está justamente em não conseguir qualificar este imigrante específico, que se caracteriza por não deixar de ser sazonal, mas que adia sua volta porque encontrou aqui a oportunidade de trabalho que o seu país natal não foi capaz de lhe oferecer, sem conseguir definir sua posição dentro do quadro social do país.

Ao contrário do imigrante legítimo — aquele que escolhe viver nos Estados Unidos — o sazonal não aspira a cidadania norte-americana com a intenção de ser mais um atuante civil. Ele aspira a legalização do seu trabalho, da sua presença e da sua liberdade de ir e vir.

Por que os EUA?

De acordo com uma pesquisa sobre o mercado brasileiro, feita pela Fundação Perseu Abramo, em nove regiões metropolitanas do país, e publicada no dia 24 de maio de 2006 no jornal Valor Econômico, no Brasil, apenas 36% dos jovens entre 15 e 24 anos têm emprego, outros 22% já trabalharam mas estão desempregados atualmente. Na média, os jovens demoram 15 meses para conseguir o primeiro emprego ou uma nova ocupação, nas regiões metropolitanas. No total, 66% deles precisam trabalhar porque todo o seu ganho, ou parte dele, complementa a renda familiar.

Nos Estados Unidos, os empregos para quem está no ensino médio ou na faculdade estão em alta. Tanto que em New York, por exemplo, como informou o jornalista Gilberto Dimenstein em entrevista à rádio CBN, não se conseguem candidatos para empregos de salva-vidas em meio período (US$ 60 por dia), porque a maioria dos estudantes já está trabalhando em outras ocupações que dão mais dinheiro.

Aldeia global

No mundo globalizado, onde as nações estão praticamente interligadas cultural e economicamente, é quase impossível não conviver com o estrangeiro, com filosofias diferentes e outras realidades. A imigração se faz presente no cotidiano da sociedade desde o início da civilização. No entanto, nas últimas décadas, tem aumentado consideravelmente o número de pessoas que optam por viver em outro país.

De acordo com dados das Organizações das Nações Unidas (ONU), o número de imigrantes no mundo praticamente duplicou na segunda metade do século XX, com 120 milhões em 1990 contra 75 milhões em 1965. A África, por exemplo, tinha, em 1990, um total de 16 milhões de imigrantes, a maioria fugindo de guerras civis que tomaram conta do continente após a descolonização. Já a Ásia abriga 43 milhões de estrangeiros, a maior quantidade registrada no mundo.

Na Europa Ocidental, a maior parte dos 25 milhões de imigrantes vieram de países subdesenvolvidos da América, África e Ásia. A América do Norte, por sua vez, acolhe 24 milhões de estrangeiros, vindos boa parte também de nações subdesenvolvidas. Na América Latina, o número é bem menor: 7 milhões. Muitos deles refugiados dos conflitos ocorridos na década de 70, em países da América Central. Na Oceania, o número de imigrantes fica na casa dos 5 milhões.

Em meados deste século, a imigração de pessoas de países subdesenvolvidos para nações desenvolvidas aumentou consideravelmente. De 1960 a 1989, o movimento totaliza 24,5 milhões. As regiões mais procuradas são América do Norte e Europa Ocidental. Conforme documento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), esse fluxo se estabilizou na década de 90.

A imigração por razões familiares, ou seja, de parentes de imigrantes já instalados, é predominante em países industrializados. Também ganha força a imigração de mão-de-obra especializada, por causa da expansão do comércio internacional, do crescimento das empresas multinacionais e do intercâmbio de conhecimento. Os considerados trabalhadores especializados são aqueles indivíduos que possuem nível universitário ou uma experiência muito vasta em uma determinada área.

O aumento do desemprego, no entanto, registrado a partir dos anos 70, vem criando resistência à imigração. Com isto, leis mais rígidas de imigração vêm sendo praticadas, como a Lei Débret, aprovada na França em 1997, e a Lei de Responsabilidade pela Imigração, que entrou em vigor no EUA no mesmo ano.

Muro

De acordo com a ONU, cresce a porcentagem de países que adotam políticas antiimigratórias. Em 1976, era de 6%, passando para 32%, em 1989 e assim gradativamente até os dias de hoje, como por exemplo o projeto de lei do governo norte-americano, que prega a caça aos imigrantes em situação irregular e visa impedir a entrada de mais imigrantes através da construção de um muro protegendo a fronteira entre Estados Unidos e México.

EUA: reforma imigratória 2006

Quase um mês depois do Senado norte-americano aprovar uma reforma imigratória HR 4437, que pode regularizar a situação de milhões de imigrantes irregulares que vivem no EUA, o líder da Câmara dos Deputados, o republicano Dennis Hastert, anunciou que o projeto de lei será analisado detalhadamente antes que se convoque o Comitê de Conferência. Esta seria a última etapa pela qual o projeto teria que passar antes de ser assinada pelo presidente George W. Bush e se tornar lei.

O atual projeto de reforma imigratória inclui um programa de legalização baseado num sistema que divide os imigrantes indocumentados em três grupos, designando tratamento diferenciado a cada um deles. O grupo 1 seria dos imigrantes que vivem no país há mais de 5 anos. Estes poderiam aplicar para uma residência temporária de seis anos e, logo depois, para a residência permanente. Somente 11 anos mais tarde é que poderia solicitar a cidadania. Essa medida beneficiaria 7.8 milhões de imigrantes.

O grupo 2 é composto pelos imigrantes irregulares que vivem no EUA há mais de 2 anos e menos de 5 anos. Através de um registro no órgão competenete, eles teriam direito a uma permissão para trabalharem legalmente até completarem 5 anos de estadia no país. Cerca de 3.5 milhões de imigrantes seriam beneficiados com esta medida.

Já o grupo 3 é composto pelos imigrantes sem documentos que estão no EUA há menos de 2 anos e que não se qualificam para receber nehum tipo de ajuda e, portanto, teriam de deixar o país, o que representa 1.4 milhões de pessoas.

O projeto de lei também prevê, entre outras medidas, acelerar as deportações, criminalizar a estada em território norte-americano de imigrantes irregulares — o que atualmente é considerada uma falta de caráter civil-sancionar –, empregadores que contratem indocumentados, acabar com a loteria do Greencard, além de autorizar a construção de um muro na fronteira com o México.

A versão do projeto não inclui nenhum tipo de benefício migratório e prevê a contratação de mais de 6 mil novos agentes patrulheiros da fronteira e a intalação de modernos equipamentos de vigilância.

Pesquisas recentes publicadas pela agência de notícias Reuters mostram que mais de 70% dos norte-americanos defende algum tipo de lei de imigração. Por outro lado, os especialistas acreditam que dificilmente o assunto será solucionado antes das eleições de novembro, uma vez que muitos republicanos acham que, se Bush sancionar a lei, isso poderá melhorar as perspectivas eleitorais do partido.

Existe ainda o risco da reforma migratória se transformar em uma emenda a ser agregada a uma outra lei, a exemplo do que aconteceu em abril de 2005, com a aprovação do polêmico projeto encabeçado pelos republicanos “Real ID”, que criou uma carteira de motorista nacional e restringiu severamente os requisitos para se obter asilo nos Estados Unidos. A assessoria do governo norte-americano informou que Bush deve seguir pressionando os republicanos congressistas para que apóiem a aprovação da atual reforma imigratória, e salientou o desejo do presidente de regularizar a situação dos imigrantes indocumentados que vivem no país.

Confinados no sonho americano

Depois de atuar por mais de um ano como terapeuta na coordenação e execução de um programa de gerenciamento de estresse da Petrobras e de duas outras multinacionais do petroléo, o brasileiro Marcelo Damasceno veio para os Estados Unidos estudar e desenvolver um trabalho de ajuda ao imigrante.

A partir dessas experiências e de seus conhecimentos como psicanalista e pedagogo, Damasceno traça um paralelo entre o trabalhador dos navios petroleiros e dos imigrantes que vêm em busca do sonho americano. Ambos vivem numa situação de confinamento, num ritmo de trabalho intenso, com mudanças de turnos e sofrendo as conseqüências da ruptura das relações familiares e sociais. Sabe mais sobre este trabalho na entrevista a seguir.

*

No seu ponto de vista, quem é o imigrante que vive nos EUA hoje?

Marcelo Damasceno – É evidente que a realidade imigratória tem suas variantes, entretanto encontramos dois tipos de imigrantes. Aqueles que são sazonais, ou seja, ficam temporariamente e aqueles que acabam ficando e construindo uma nova vida inserindo-se ao contexto sócio-cultural americano. Este segundo tipo, normalmente se caracteriza por aquelas pessoas que trazem toda a familia, principalmente filhos pequenos, e em geral são estes os propiciadores da decisão familiar de ficar. Isso pelo fato de que os filhos, ao iniciarem sua relação com a escola, o idioma e amigos, acabam tendo maior adaptação à nova condição de vida, e os pais, por sua vez, entendem que é melhor ficar pelo bem dos filhos.

Por que você acredita que os imigrantes acabam se dividindo em duas categorias?

Marcelo Damasceno – Pelas próprias caracterísricas imigratórias de países como os Estados Unidos. A sazonalidade é um aspecto ligado à maior motivação dos imigrantes: ganhar dinheiro e estabilidade econômica. Já aquele imigrante que vem para ficar, está dentro da normalidade, digamos assim, do aspecto geral imigratório.

Você acredita que o comportamento deste imigrante destoa da definição do que é ser imigrante?

Marcelo Damasceno – De certa forma. A imigração de brasileiros para os Estados Unidos ainda é muito recente, diferente de outros povos. Isso faz com que nossa realidade imigratória seja em grande parte sazonal. Essa temporalidade do imigrante brasileiro cria diversos problemas, mas creio que em mais alguns anos, a realidade sazonal do imigrante brasileiro mudará para uma imigração propriamente dita.

O imigrante chega nos EUA com um objetivo determinado de acordo com o que ele conhece e viveu no Brasil. Após conhecer a realidade local, como ele lida com os ânseios e dúvidas sobre onde construir sua vida?

Marcelo Damasceno – Esta é uma questão muito importante. Em geral, as pessoas constroem sua decisão de imigrar, a partir de dois fatores: O dinheiro e a fantasia americana mostrada pelas telas de Hollywood. Não se preocupam com a diversidade dos problemas que enfrentarão como o idioma, cultura e demais questões pertinentes à decisão de imigrar. O que acaba acontecendo é que as pessoas se realizam parcialmente, gerando transtornos emocionais ou potencializando-os caso já os tenha. Há um termo da psicanálise que costumo usar para o aspecto imigratório – “angústia de separação”. Percebo que há similaridade deste fenômeno no comportamento dos imigrantes. O sofrimento de separar-se de sua cultura, língua, amigos e parentes, cria, muitas vezes, um incontrolável problema emocional, que acaba dificultando ou inviabilizando o próprio projeto de vida da pessoa.

Que tipo de desafios este imigrante enfrenta, e qual a maneira escolhida para lidar com isto?

Marcelo Damasceno – Acho que a maior dificuldade seria a consciência de seu estado de imigrante. Muitas pessoas, ao virem para este país devido suas frustrações e demais dificuldades, acabam por criar um personagem fictício e vivem uma fantasia que não condiz com sua real característica imigratória. Isso é muito comum nos países ocidentais. Encorporamos a cultura americana de tal forma, que deixamos de ser imigrantes reais para sermos falsos nativos. Em outras palavras, deixamos de falar o português, assumimos novos nomes, criando assim um personagem de vida. O imigrante precisa viver a verdade de sua origem. Acho que isso é algo que precisamos resgatar nos dias de hoje. A melhor forma de lidar com esta dificuldade é a de preservar nossa língua, cultura e costumes, pois assim enfrentaremos melhor as dificuldades de viver em outro país.

Em 2005, o US Naturalization and Immigration Services informou que a imigração legal de brasileiros aumentou 58% em relação à 2004. Subindo de 10 mil ao ano, para 16 mil ao ano. Como você analisa isto e quais as explicações?

Marcelo Damasceno – Este aumento, considerando uma avaliação sócio-antropológica é evidente primeiro pela conscientização do imigrante atual, de que imigrar ilegalmente pode trazer mais prejuízos que benefícios. Segundo que de 10 anos para cá, a realidade acadêmica brasileira mudou muito. O número de pessoas com nível superior aumentou consideravelmente, possibilitando estágios, períodos de estudos e trabalho no exterior. É claro que há outras respostas pertinentes ao aspecto puramente imigratório.

Você aponta que a história da imigração brasileira é recente e que esta temporalidade pode causar diversos problemas. Poderia citar alguns exemplos?

Marcelo Damasceno – Ao meu ver, o brasileiro em geral, não tem o mesmo perfil imigratório como outros povos. A exemplo os portugueses, italianos, etc. Por ser ainda recente a imigração brasileira – apenas poucas décadas – há problemas ligados a alguns aspectos. Inicialmente à propria construção e definição da vida, ou seja, as pessoas que vivem a imigração sazonal, acabam por viver duas vidas, “em dois países”. Isso dificulta a estabilidade sócio-familiar criando assim uma forma parcial de convivência. Essa dualidade social, inviabiliza uma das grandes necessidades humanas: relações sociais sólidas. Outra questão é que a pessoa acaba estabelecendo suas metas e objetivos a partir de dois contextos bem diferentes, e isto obviamente dificulta a concretização deles, criando frustração e angústia.

Qual é o papel do imigrante tanto para a economia quanto para a cultura norte-americana?

Marcelo Damasceno – A diversidade cultural e racial é uma das coisas que torna este país o que ele é. Essa diversidade traz contribuições de progresso, crescimento e fortalecimento da nação. Ao contrário do que muitos pensam, o imigrante traz contribuições gigantescas à própria existência do país. Em suma, diria que o papel do imigrante é o de construir uma nação que não é sua, mas que o recebe criando-lhe possibilidades que, por alguma razão, não foram encontradas em seu próprio país. Entretanto, não podemos negar nossa pátria, mas compreender que nossas origens são importantes, pois nelas encontramos nossos valores de vida.

Durante quanto tempo você trabalhou nos petroleiros? Como era o seu trabalho com os embarcados?

Marcelo Damasceno – Trabalhei durante um ano e meio. Meu trabalho era de coordenação e execução de um programa de gerenciamento de estresse da Petrobras e de duas outras multinacionais do petroléo. Era um trabalho de identificação, prevenção e tratamento dos distúrbios comportamentais ligados ao trabalho offshore – como é chamado o trabalho de embarcado. Embarcava na plataforma, desenvolvia trabalhos em grupo (terapia) e auxiliava as pessoas no que tange aos problemas de ordem emocional, ligados a realidade sócio-organizacional.

Quais a semelhanças que você encontra entre o imigrante que vive nos EUA e o trabalhador embarcado em navios petroleiros?

Marcelo Damasceno – As semelhanças basicamente são três. Quando trabalhamos com o petroleiro, encontramos o aspecto do confinamento, ou seja, ele e levado para uma plataforma, que pode estar a 200Km da costa, e que, de nenhuma forma, ele pode sair dali. A isto chamamos estado de confinamento. Alem disto, há um ritmo de trabalho intenso com mudanças de turnos durante a quinzena de embarque. E, por último, a ruptura das relações familiares e sociais.

De certa forma, o imigrante tambem sofre esses problemas. Torna-se confinado em um país distante do seu, sem poder sair por razões normalmente ligadas ao status legal. É um confinamento cultural e social também, pois ele é obrigado a envolver-se neste novo contexto para sua própria sobrevivência. O ritmo intenso de trabalho, turnos variados também são nossa realidade aqui. E obviamente a ruptura familiar e social. O imigrante é condicionado a deixar familiares e amigos, para enfrentar uma nova realidade existencial. Este último aspecto, seria o grande causador de problemas emocioais.

Que tipos de problemas o estado de confinamento pode criar para o imigrante?

Marcelo Damasceno – Essa é uma questão complexa. A experiência mostra que há variantes quanto a isso. Em geral, o estado de confinamento ajuda a desenvolver neuroses e transtornos comportamentais. Entre eles citaria apenas como informação sem esgotar o assunto, as depressões, histerias e fobias, transtornos obssessivos compulsivos, trantornos alimentares e ansiedade generalizada. Entendendo que, normalmente, há níveis mais intensos de ansiedade em todos os casos de neurose. Esses foram os problemas comportamentais que encontrei nas pesquisas que fiz.

O que você acha das diretrizes do projeto de lei de imigração do governo norte-americano?

Marcelo Damasceno – Tenho dificuldade de aceitar que venha alguma proposta que realmente beneficie os imigrantes indocumentados. Acho que a proposta do governo americano é parcial e que não vai resolver a totalidade dos problemas do imigrante.

Qual é a idéia central do livro que você está escrevendo?

Marcelo Damasceno – Na verdade ainda é um projeto. Baseado no material que tenho sobre a vida do trabalhador em plataformas de petróleo, estou desenvolvendo um texto sobre a vida do imigrante a partir de seu estado de confinamento sócio-cultural. É uma pesquisa ampla e que vai exigir muito trabalho e dedicação. Em geral, quero trabalhar os problemas emocionais e comportamentais vividos pelo imigrante, e, através deste texto, poder ajudá-lo na compreensão de sua própria maneira de ser como imigrante neste país.

(*) Nomes falsos a pedido dos entrevistados.

(**) Conteúdo do jornal Extra, publicado nos EUA pela Extra Communications LLC, e distribuído no Brasil pela BR Press.



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